
O mês de julho traz consigo uma mobilização nacional de extrema importância para a saúde pública: a campanha Julho Verde. O objetivo é conscientizar a população sobre a prevenção, os fatores de risco e a necessidade do diagnóstico precoce do câncer de cabeça e pescoço — termo que engloba tumores localizados em regiões como boca, língua, laringe, faringe, tireoide e lábios.
O cenário exige atenção. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que o Brasil registre mais de 42 mil novos casos da doença neste ano de 2026. Para entender melhor os desafios, os sintomas frequentemente negligenciados e os avanços no tratamento, conversamos com o Dr. Leonardo Aidar, cirurgião de cabeça e pescoço do Hospital do Câncer em Uberlândia (HC-UFU/HU Brasil).
Sinais de alerta: o perigo de confundir os sintomas
De acordo com o especialista, os sintomas iniciais costumam ser discretos e, por isso, muitas pessoas acreditam que se tratam apenas de uma inflamação ou de uma infecção comum da rotina.
“A recomendação é simples: qualquer sintoma que persista por mais de duas a três semanas deve ser avaliado por um especialista, preferencialmente um cirurgião de cabeça e pescoço ou um otorrinolaringologista. O tempo é um fator decisivo no sucesso do tratamento”, alerta o Dr. Leonardo Aidar.
Fique atento aos principais sinais de alerta, que incluem:
- Ferida na boca que não cicatriza em até duas semanas;
- Rouquidão persistente por mais de três semanas;
- Dificuldade ou dor para engolir;
- Dor de garganta contínua;
- Caroço no pescoço, geralmente indolor;
- Manchas brancas ou avermelhadas na boca;
- Sangramentos sem causa aparente;
- Dor de ouvido persistente, especialmente quando o exame do ouvido é normal.
Além do cigarro e do álcool: o novo perfil dos pacientes
Embora o tabagismo e o consumo de bebidas alcoólicas continuem sendo os principais vilões, Dr. Leonardo aponta uma mudança importante no perfil de quem desenvolve a doença atualmente.
“A infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV) tem sido um dos principais fatores responsáveis pelo aumento de casos, especialmente nos tumores de orofaringe. Esses novos pacientes costumam ser mais jovens e, em muitos cenários, nunca fumaram”.
Outros fatores de risco incluem:
- Má higiene bucal e exposição excessiva ao sol (risco direto para câncer de lábio);
- Dieta pobre em frutas e verduras;
- Exposição ocupacional a poeiras, madeira, amianto e produtos químicos;
- Imunossupressão e infecção pelo vírus Epstein-Barr.
Como se prevenir?
A prevenção ativa envolve a adoção de hábitos saudáveis, como não fumar, reduzir o consumo de álcool, manter uma boa higiene bucal e usar protetor labial com filtro solar. Além disso, o médico destaca que a vacinação contra o HPV representa uma estratégia fundamental para reduzir o risco de tumores relacionados ao vírus, acompanhada sempre de consultas médicas e odontológicas regulares.
O slogan do Julho Verde não existe por acaso: descobrir a doença logo no início transforma completamente o futuro do paciente. “Quando identificado em estágio inicial, as chances de cura do câncer de cabeça e pescoço frequentemente ultrapassam 80% a 90%, variando conforme a localização e o tipo do tumor”, ressalta o especialista.
Mas o impacto vai muito além da cura. Diagnosticar cedo viabiliza abordagens terapêuticas menos agressivas, o que significa:
- Cirurgias menores e menor necessidade de tratamentos complementares pesados, como radioterapia e quimioterapia;
- Maior preservação da fala, da voz e da deglutição;
- Menor risco de sequelas estéticas e funcionais, garantindo um retorno mais rápido às atividades cotidianas.
“Em outras palavras, diagnosticar cedo não significa apenas viver mais, mas também viver melhor”, pontua o cirurgião.
Hoje, o tratamento do câncer de cabeça e pescoço é totalmente individualizado, baseado no estágio e na localização da doença. Entre as modalidades disponíveis estão a cirurgia, a radioterapia, a quimioterapia, as terapias-alvo e a imunoterapia para casos selecionados.
Embora a cirurgia permaneça como um dos pilares, a área evoluiu drasticamente. O Dr. Leonardo Aidar explica que atualmente são utilizadas técnicas cada vez menos invasivas, planejamento por imagem de alta precisão, monitorização de nervos em tempo real e reconstruções complexas com microcirurgia (utilizando tecidos de outras partes do corpo para restaurar o que foi removido).
O foco da medicina moderna mudou: o objetivo agora é retirar o tumor integralmente, mas preservando ao máximo funções fundamentais como a fala, a deglutição, a respiração, a mastigação e a expressão facial. Para que essa recuperação seja completa, o Hospital do Câncer em Uberlândia conta com a atuação essencial de uma equipe multidisciplinar (fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, oncologistas, entre outros).
Lembre-se: o câncer de cabeça e pescoço tem tratamento e tem cura. Não negligencie os sinais do seu corpo. Diante de qualquer sintoma persistente por mais de duas semanas, procure avaliação médica. O diagnóstico precoce salva vidas!